Frederico Cattani

Advogado com experiência em aconselhamento de gestores e empresários | Atua em matérias complexas que exigem conhecimento, estratégia e senioridade | Conselhos Consultivos e de Administração | Direito Penal Econômico e Crimes Empresariais | Direito Eleitoral e Assessoria de Pessoas Públicas | Sucessão Familiar e Societária

12/27/25

O fim do “cidadão médio”: por que a macroeconomia de precisão é a nova fronteira da gestão (o simples caso de vender guarda-chuvas)

O que vende mais quando chove e quando o dia é de sol? A mesma abordagem tratando todos os dias do ano como se fossem chuvosos ou ensolarados não é a melhor resposta de gestão. Vivemos o fim do “cidadão médio” para um olhar "cada consumidor tem que ser entendido": por que a macroeconomia de precisão é a nova fronteira da gestão.

Em dezembro, ouvi duas frases opostas de dois clientes. Um comemorava: “o negócio está pegando fogo”. O outro foi direto: “agora só depois do dia 15 de janeiro para voltar a faturar”. Mesma economia. Mesmo país. Mesma Selic. Estes clientes estão dispostos a consumir em qual mercado, qual produtos, quais serviços?
A pergunta surgiu quase automaticamente sobre a seguinte ilustração: faz sentido uma única taxa de juros para necessidades tão diferentes?

A macroeconomia tradicional responde que sim. Parte da ideia de que existe um comportamento médio, um “cidadão padrão”, capaz de representar toda a economia. O problema é que esse personagem nunca existiu fora dos modelos. Um cliente pode estar contratando e alimentando o ecossistema, enquanto o outro está apagando luzes e dando férias coletivas.

A economia real não funciona como uma planilha bem ajustada. Ela é desigual, fragmentada e profundamente heterogênea. Tratar todos os agentes como se reagissem da mesma forma a juros, inflação ou crédito não é apenas um erro acadêmico — é um erro de gestão.

A queda do modelo RANK e a ascensão do mundo real (HANK)

Durante décadas, os modelos RANK (Representative Agent New Keynesian) dominaram a análise macroeconômica. A premissa era simples: todos consomem, poupam e investem de forma semelhante.

Na prática, isso nunca aconteceu.

Quando a Selic sobe, uma empresa alavancada sente o caixa sangrar. Um investidor rentista pode ver sua renda aumentar. Uma família endividada corta consumo. Outra, com liquidez, segue gastando. O mesmo choque gera efeitos opostos.

É exatamente aqui que entram os modelos HANK (Heterogeneous Agent New Keynesian). Eles partem de uma constatação óbvia, mas por muito tempo ignorada: os agentes econômicos são diferentes. Têm restrições distintas, acessos diferentes ao crédito e reagem de forma assimétrica à política monetária.

A Propensão Marginal a Consumir (PMC) não é homogênea. Entender quem está restrito e quem está líquido separa análise estratégica de chute caro.

Tratar uma economia heterogênea como se fosse homogênea é tentar resolver um problema de precisão com uma solução grosseira.

Big Data e inteligência artificial: o microscópio do gestor moderno

Não é modismo que Big Data, Machine Learning e Inteligência Artificial passaram a ocupar o centro do debate econômico. Eles resolvem um problema estrutural: a falta de granularidade.

Durante muito tempo, gestores tomaram decisões olhando dados agregados, atrasados e excessivamente suavizados. Hoje, isso é insuficiente.

Dados transacionais em tempo quase real mostram onde o consumo está desacelerando e onde ainda resiste. Análises de alta frequência antecipam ciclos que os indicadores oficiais só confirmam meses depois.

Além disso, política monetária não funciona apenas por taxa de juros. Funciona por expectativa. Ferramentas de Processamento de Linguagem Natural (NLP) permitem mapear sentimento de mercado, setores e grupos específicos antes que isso vire dado contábil.

Modelos baseados em IA também capturam relações não lineares ignoradas por análises tradicionais, mostrando como desigualdade de renda, endividamento e câmbio amplificam choques econômicos.

Para o gestor contemporâneo, isso não é tecnologia. É vantagem competitiva.

Comunicação deixou de ser discurso. Virou instrumento de precisão.

Comunicar política econômica não é mais apenas informar. É calibrar impacto. E, aqui, não é so algo para o mercado financeiro, é uma regra de gestão básica.

Se o Banco Central fala e o mercado financeiro entende uma coisa, enquanto o setor produtivo entende outra, o canal de transmissão falhou. A política pode estar correta no papel — e errada no efeito. Da mesma maneira, estar chovendo e manter os guarda-chuva escondido dos clientes é perder venda. 

O uso de IA na calibragem do forward guidance permite ajustar linguagem, intensidade e timing conforme o público e o momento volátil das oportunidades. Não existe mais uma mensagem única,  um mercado único. Existe a mensagem certa para o agente certo e para atender oportunidades que passam a ser vistas e compreendidas.

Ignorar isso é perder eficiência econômica.

Pequenas ações para grandes gestores: como começar agora

A transição da macroeconomia baseada em médias para a macroeconomia de precisão já está em curso. Estou falando de negócios, de empresas e de serviços. Para não ficar para trás:

Audite seus dados: pare de olhar apenas PIB, IPCA ou índices médios. Pergunte quais setores, perfis de clientes ou regiões estão puxando o resultado — e quais estão sendo penalizados.

Adote nowcasting: dados de alta frequência, como cartões, energia, logística e buscas online, antecipam movimentos econômicos. Quem espera o dado oficial reage atrasado.

Monitore sentimento: o clima econômico costuma virar antes do balanço. Análise de notícias, relatórios e discursos já entrega sinais relevantes.

Treine o olhar para impactos desiguais: toda mudança fiscal ou monetária deve ser testada em dois cenários — agentes com alta liquidez e agentes restritos. Estratégias sólidas sobrevivem aos dois.

A macroeconomia moderna não é mais sobre médias. É sobre distribuições, assimetrias e comportamento real.

No fim, a pergunta não é se a Selic sobe ou desce. A pergunta correta é: quem sente esse movimento como freio e quem sente como alavanca?
No mercado atual, vence quem abandona o mito do cidadão médio e passa a governar olhando para os detalhes.