Frederico Cattani

Advogado com experiência em aconselhamento de gestores e empresários | Atua em matérias complexas que exigem conhecimento, estratégia e senioridade | Conselhos Consultivos e de Administração | Direito Penal Econômico e Crimes Empresariais | Direito Eleitoral e Assessoria de Pessoas Públicas | Sucessão Familiar e Societária

12/23/25

A armadilha do “dinheiro fácil” - dois olhares sobre pagar juros

Você gere um negócio ou sustenta o banco?
O vício oculto do empresário brasileiro
Final de ano e um tema recorrente é "comprar dinheiro" (empréstimos) para pagar a folha, liquidar dívidas e negociar impostos para garantir modelos tributários como Simples Nacional.
A reclamação dos empresários brasileiros é atribuída a alta dos juros, culpando o custo do dinheiro comprado (Selic alta). É um álibi confortável — e falso, que esconde o modelo brasileiro que usa empréstimos como algo natural. 
No Brasil, o que eu observo, é que empresas raramente quebram por falta de faturamento. Erros existem em vários níveis, mas o maior é o vício em comprar dinheiro que é diferente da virtude de financiar projetos.

No balanço, os juros aparecem como despesa financeira constante e crescente nos comparativos. Mas, quando questionado o gestor, ele responde: "foi para cobrir a folha..." Na realidade, ele é o preço cobrado pela ausência de método ou pela falta de estratégia. 

Juros não devem ser tratado como um “custo inevitável no Brasil”. São, quase sempre, o sintoma de uma falha de gestão ou de uma escolha consciente — ainda que mal assumida — de capital.

Para ilustrar: 
a) existem negócios que são abertos que, sequer, poderiam sair da ideação de quem os abre. Começar uma empresa sem um entendimento ou plano de negócio, via de regra, é começar assinando contrato com o gerente do banco e pegando empréstimo, destinado muito mais ao caixa operacional do que a estrutura. É uma fórmula que dificilmente vai ser revertida na operação.
b) um financiamento estratégico pode permitir a expansão de um negócio, o dinheiro entra com propósito e o juros faz parte do cálculo. Ao final, a conta está  conscientemente paga e o juros não comprometeu o negócio, a empresa dá baixa naquela conta que cumpriu seu dever. Agora, segue em outro patamar maior ou com melhorias.

 O empresário está “Viciado em Juros”. Tem quem sente até culpa quando faz algo sem pagar juros
(Juros como Opex disfarçado)

Esse é o perfil mais comum. Vive no limite da conta, na antecipação de recebíveis, no crédito rotativo para pagar folha e fornecedor. Muitas antecipações são somente para "ver o dinheiro" na conta, não fazem sentido em determinado momento.

A provocação necessária: se você precisa de crédito para sustentar (ou salvar) o dia a dia, seu modelo de negócio está estruturalmente defeituoso. Você não está financiando a operação — está pagando juros para esconder uma ineficiência operacional ou uma margem que simplesmente não existe.
As vezes, juros são pagos com mais juros (renegociação pela ineficiência do primeiro empréstimo).

O diagnóstico, mesmo que tardio
O juro quando não financia crescimento deve ser uma exceção pontual e consciente. Ele compra tempo e será coberto por uma atitude esperada e prevista. E, esse tempo, é muito caro. Aqui, você troca lucro futuro por sobrevivência imediata. O juro do Opex funciona como um imposto privado sobre a má gestão de caixa. 

Assim como no governo, déficit ou superávit se definem antes do pagamento dos juros. 

Na empresa, o juro não é a causa de um problema — é o espelho da sua natureza econômica inicial: quem chega a ele em déficit paga para sobreviver (operação insuficiente precisa de dinheiro emprestado para ser coberta); quem chega ao juro em superávit paga um retorno para crescer (a operação está paga e há margem para pagar juros, o dinheiro emprestado surge como investimento, um sócio temporário que entra sem descapitalizar o empresário, permite disponibilidade de capital sem impactar o caixa).

O que motiva pagar o juros? 

Se o empresário corre ao banco sempre que surge um problema de fluxo de caixa. Não há planejamento tributário, não há reserva de contingência, não há cenários. Apenas urgência. A verdade é que ele compra dinheiro para apagar incêndio. Em muitos casos, ele está pagando para existir. O estrago do incêndio foi feito e a recuperação é dolorosa, quando o incêndio não fica ali, menor, mas consumindo o que sobreu. Por isso, é a forma mais cara de gerir uma empresa. O banco adora empresários sem plano, porque a pressa elimina negociação, critério e estratégia.

A virada: juros como "dividendos". Aqui está a linha divisória entre amadores e profissionais. Este empresário não vê uma dívida. Ele vê o juros do dinheiro como uma ferramenta de engenharia financeira. Ele toma crédito de maneira consciente, seja pela oportunidade do custo baixo (retorno maior do que uso do capital proprio), seja para investir em máquinas, tecnologia, escala ou expansão.

Existem empresários que calculam o ROIC e só se alavancam quando o retorno do capital investido supera, com folga, o custo da dívida.

Nesse cenário, pagar juros não é um fracasso — é o custo de usar dinheiro de terceiros para acelerar crescimento. Na verdade, é como funciona a bolsa de valores. Quem disponibiliza o dinheiro deixa de ser salvador e passa a ser fornecedor de capital com a promessa de retorno. Juros, nesse contexto, funcionam como dividendos pagos a quem financiou a expansão, enquanto o caixa próprio permanece preservado para oportunidades estratégicas

 De que lado você está?

No Brasil, o gasto com juros pode ser o maior ralo de valor da sua empresa ou seu principal acelerador de crescimento.

É importante entender que a pergunta não é sobre “quanto estou pagando de juros?”. O juros pago faz parte do cálculo sobre uma decisão estratégica que veio antes dele.

O que precisa ser feito é uma reflexão sobre a motivação, as razões reais - que não é o dinheiro de empréstimo em si na conta, mas a sua "finalidade finalística" de uso.

A pergunta fica, assim: "O que esse dinheiro irá comprar?": 
a) estrutura, oportunidade, escala e/ou vantagem competitiva?  
b) tempo, cobrir ineficiência, margem de fluxo de caixa, salários, dividas....

Não é fácil ser empresário no Brasil. Não é fácil uma estruturação. Mas a ilusão de uma ajuda temporária, que tudo está sob controle, tem um preço e um custo muito mais alto.

Juros não mentem. Eles apenas ajudam a revelar, sem piedade, o nível real da sua gestão.