E arquitetura e cultura, como se sabe, moldam comportamentos. E as verdades inconvenientes sobre o Calendário de Brasília mostram muito mais sobre o Brasil político em descompasso com agenda empresarial.
Existe uma piada recorrente no setor produtivo: “O Brasil só começa depois do Carnaval.” O problema é que, quando olhamos para Brasília, isso deixa de ser piada e passa a ser desenho institucional e mensagem.
A aparente “lentidão” do início do ano político não é mera desorganização. É a combinação de três fatores estruturais: Constituição, cultura institucional e estratégia política.
Início: 2 de fevereiro
Recesso de meio de ano: 17 de julho a 1º de agosto
Encerramento: 22 de dezembro
Qualquer atuação fora desse período depende de convocação extraordinária. Ou seja, janeiro não é “mês improdutivo por acaso” — ele simplesmente está fora do calendário.
O STF, por tradição institucional, também marca sua abertura solene no início de fevereiro. É um gesto simbólico, mas simbolismos importam — eles sinalizam quando o sistema “entra em operação normal”.
E o Carnaval? Bom, isoladamente, é um feriado como outro qualquer. O que pesa é a dinâmica política ao redor dele.
Não se trata de folclore. É gestão de risco político: ninguém quer iniciar votações complexas quando sabe que a base vai se dispersar dias depois.
Existe, ainda, a abertura do ano legislativo, o Presidente da República envia uma mensagem ao Congresso. Em teoria, seria um momento de balanço. Na prática, costuma ser mais plano do que prestação de contas. Diferentemente de um CEO, que responde a indicadores objetivos sob risco real de substituição, o chefe do Executivo opera em um ambiente onde a avaliação é político-eleitoral, não técnico-gerencial.
O setor privado opera sob prazos contratuais, fiscais e regulatórios rígidos. O setor público político opera sob janelas institucionais largas, rituais históricos e conveniências de quórum.
Quando a empresa atrasa, há multa, execução e, às vezes, responsabilização pessoal. Quando Brasília adia decisões, a justificativa é protocolar: “Ficou para depois do Carnaval.”
Essa assimetria entre o tempo da produção e o tempo da política é parte central do chamado custo Brasil. Não é falha operacional. É arquitetura institucional.